segunda-feira, 23 de maio de 2016

O Ensino especializado de música entre diferentes mundos, complexidades e desafios


Introdução[1]
O ensino especializado de música, é um campo compósito, complexo e reticular situado no cruzamento entre os mundos da educação e da formação e os mundos das artes e da cultura. Esta dupla referencialidade, abrange modalidades, territórios e finalidades diferenciadas e fragmentadas, bem como os tipos de saberes que aborda, mais técnicos, criativos ou investigativos. Neste campo compósito a educação e formação não se joga apenas nos espaços e nos tempos da escola mas em territórios multipolares em que interagem uma diversidade de atores públicos, privados e do terceiro sector (nacionais, locais e internacionais) em redes diferenciadas de sentidos e onde se confrontam e complementam olhares, saberes e experiências.
Por outro lado, as transformações operadas no campo criativo, investigativo e tecnológico, social e cultural, assim como nos modos como os públicos se relacionam com as artes e a cultura, interpelam as políticas públicas no ensino especializada de música num triplo e simultâneo sentido de intervenção: curricular, organizacional e profissional. Interpelação e intervenção em que a par do desenvolvimento das ferramentas necessárias à apropriação, devidamente contextualizada, dos códigos e convenções característicos de cada área, época ou tipologia musical, das técnicas de um determinado instrumento, da criação e interpretação de uma obra musical, com diferentes tipos de configurações (solística, de pequenos e/ou de grandes grupos), se promovam modos organizacionais e perspectivas de desenvolvimento de um profissionalidade de músico que articule os mundos das artes, educação e cultura fomentando a criatividade, a experimentação e a inovação de procedimentos educativo-artísticos e de intervenção cultural comunitária, atendendo a que, no mercado de trabalho dos bens artísticos e culturais, dos bens simbólicos, nem sempre existe uma relação directa entre o “sucesso académico” e o desenvolvimento de uma carreira artística. Os caminhos para que um músico desenvolva uma carreira musical são variados e, muitas vezes, imprevisíveis, “não existindo um percurso claro e linear para se tornar músico” (Coulson, 2010: 259).
Este tipo de problemáticas e características configuram um campo de “singularidades diferentemente articuladas” (Vasconcelos, 2011) que tem subjacente um conjunto de complexidades que percorrem transversalmente mundos e geografias diferenciadas, os saberes e as políticas em presença, colocando ao ensino especializado de música um conjunto de desafios para lidar com a mudança e que procurem contrariar as tendências dominantes assentes na funcionalização e na mercadorização da educação artístico-musical.
Neste contexto, esta reflexão está organizada em três pontos. No primeiro irei apresentar algumas considerações acerca dos saberes e das aprendizagens tendo presente as complexidades dos mundos da música e do seu ensino; no segundo, centrar-me-ei em algumas problemáticas do trabalho artístico e da formação de músicos e, no terceiro, abordarei alguns desafios em torno de quatro cês: conhecimento, criatividade, cosmopolitismo e complementaridade. Por último, umas breves considerações finais.
1. Dos saberes e das aprendizagens: as complexidades dos mundos da música e do seu ensino
Os mundos da música, parafraseando Howard Becker (1984), são constituídos por conjuntos alargados de redes de indivíduos, instituições, acções e sentidos cuja actividade é desenvolvida através de coordenações variadas, multi-situadas, e por vezes conflituais, que contribuem para a criação, produção e difusão de determinado tipo de trabalho artístico-musical.
Por outro lado, a contemporaneidade formativa, artística e cultural é caracterizada por um conjunto alargado de factores que passam pela individualização, diferenciação e pluralismo; pela globalização de ideias e procedimentos; pela multiplicidade de práticas, muitas vezes afastadas das suas tradições históricas; pela multi-centralidade da vida cultural, artística e formativa; por uma formação policentrada que não se exerce apenas no contexto escolar e académico, pela mercadorização da música e do seu ensino. Conjunto este em que as ideias acerca da música têm consequências diversas nos modos de organizar os sons, as formações e os comportamentos que lhes estão associados: das culturas de tradição oral às culturas de tradição escrita, das culturas urbanas e suburbanas as culturas mais eruditas. As ideias acerca da música determinam quais são os contextos para a música e como esta irá soar (Nettl, 2001:8).
Deste modo, as polifonias existentes no ensino de música, nas culturas, práticas e consumos artísticos das sociedades contemporâneas e a estratificação dos estilos musicais (Martin, 1996), compreendem problemáticas estéticas (associadas a diferentes estilos e tipologias artísticas), geográficas (englobando várias partes do mundo), histórico-sociais, (englobando diferentes épocas, etnias, contextos) e económico-políticas. Cada uma destas polifonias tem os seus valores, hierarquias, códigos, convenções, usos, funções, modos de ver e de fazer, contribuindo deste modo para o aumento da complexidade e dos hibridismos político-artísticos e para os questionamentos entre a construção e a reprodução social e formativa das hierarquias artísticas (Santos, 2010).
Os referentes que hoje temos em relação a este tipo de ensino artístico, de escolas e dos seus profissionais são histórica e culturalmente construídas, muitas vezes pouco sustentadas e questionadas “porque aparentemente são muito evidentes” (Nóvoa, 2005), assentes numa determinada representação do que é a arte, os artistas, a formação confrontada entre paradigmas de tradição clássico-romântica, paradigmas funcionalistas e a pressão da globalização, paradigmas mais contemporâneos (Vasconcelos, 2002, 2004ª, 2013). As políticas neoliberais e os cânones tradicionais não valorizam nem as escolas nem este tipo de ensino como "territórios simbólicos e ambíguos”, atendendo a que os processos de educação e de formação artístico-musical são, pela sua natureza paradoxais (Vasconcelos& Queirós, 2013).
Com efeito, pode-se aprender as técnicas, a história, os reportórios, desenvolver a criatividade mas dificilmente se formam artistas (Waterman, 1976). Alguém singular, que dominando as técnicas, os reportórios, a história da música e a história social e cultural, consegue construir uma visão particular sobre o mundo e as obras de arte que interpreta, cria ou recria. Sob este ponto de vista, o ensino especializado da música, só pode criar condições plurais que potenciem a formação de artistas através do fomento de uma cultura humanista, do confronto com diferentes mundos e realidades artísticas e outras, no alargamento dos quadros de referência.
Por outro lado, as relações complexas entre as exigências “universais” da educação e as experiências singulares da arte, entre a regra e a transgressão, entre o centro e a margem, contribuem para estas ambiguidades naquilo que Beaulieu (1993) designou por “disciplinas indisciplinadas”. E nestas “disciplinas indisciplinadas” existe um outro factor de grande ambiguidade e importância: o “the wow factor” (Bamford,2006). Isto é, o encantamento e os resultados imprevistos que são difíceis de medir mas que possuem um enorme impacto nos estudantes, professores e comunidades transformando-se também numa força que une os diferentes actores mesmo quando existem situações de grandes constrangimentos estruturais e políticos. Esta mesma perspectiva é partilhada por Durrant (2003), quando refere que a qualidade da experienciação musical é “poderosa” e nem sempre pode ser planeada em termos de resultados finais ou medida em testes e exames como acontece noutro tipo de contextos educacionais e formativos dado que a natureza do acto criativo reside na divergência e no “encantamento inexplicável” (p. 82).
Neste contexto, conceptualizar o ensino especializado de música como território de fronteira é também conceptualizar a pedagogia artística e musical como uma pedagogia do imprevisível e criativa. E esta formação de fronteira inscreve-se numa dinâmica dialéctica que pode ser caracterizada por se situar:
  • Entre subjectividades educativas e artísticas diferenciadas. As crianças, os jovens e os adultos movem-se em espaços formais e informais, possuidores de memórias e sentidos consoante as comunidades de pertença e onde as práticas individuais se cruzam com os diferentes tipos de racionalidades, convenções, formas de sociabilidade e identitárias. Por outro lado, um dos aspectos essenciais da formação artística é o contributo para a construção das singularidades e da autonomia que possibilitem a criação de novas racionalidades técnicas, códigos e convenções, de novas racionalidades estéticas e interpretativas.
  • Entre diferentes saberes, técnicas, convenções e os indivíduos. As formas diferenciadas de expressão, criação e realização artístico-musical têm subjacente um conjunto de convenções de carácter múltiplo, numa dinâmica entre permanência e mudança, uma dialéctica entre o “território de formação” e o “território do indivíduo”. O modo como estas pontes se estabelecem é um dos aspectos determinantes de como a criança, o jovem e o adulto apropria os saberes artísticos, constroem as suas identidades e se projectam no futuro.
  • Entre a formação, a experimentação, a fruição e a produção. No âmbito das artes performativas, a aprendizagem só adquire sentido num contexto de uma apresentação prática de diferentes tipos de realizações artísticas, que têm subjacentes modos diferenciados de comunicabilidade e públicos diversos onde confluem múltiplas estratégias que influenciam decisivamente o jogo da oferta e da procura, uma vez que diferem em termos de interesse e da ligação a uma forma e género artístico particular,
  • Entre a tradição e a inovação. A música como construção social e humana, como cultura e forma de conhecimento do mundo (Marti,2000) é enformada por diferentes contextos socializadores de determinados procedimentos e técnicas de acordo com os universos de referência. Mudando estes universos socioculturais, alteram-se as significações e culturas artísticas. As memórias e as convenções podem ser utilizadas também para superar o dilema entre o conhecido e o desconhecido, entre a reprodução de modelos existentes ou a criação de novos numa dialéctica entre herança e inovação, estabilidade e mudança, algumas das faces caracterizadoras das complexidades, das precariedades e das forças deste tipo de formação artístico-musical.
Desta conceptualização, emerge um campo não só de singularidades como também num campo intersectorial o que, do ponto de vista das políticas e dos modelos curriculares, importa interrogar as diferentes possibilidades e características deste tipo de formação de modo a que o estudante seja considerado também como um actor político e não um consumidor, deixando de o encarar como “ser futuro” mas “ser actual” (Canário, 2008; Small, 1980) para que as suas competências, adquiridas em diferentes contextos formais e não formais, possam ser reconhecidas e valorizadas. A qualificação decorre da apropriação e do desenvolvimento de competências multifacetadas e não é um desígnio a priori da apropriação de instrumentos de pensamento e de cultura.
Ora, esta perspectiva de olhar para o ensino especializado de música inscreve-se no que Wilson (2002) designa por “estrutura rizomática”, por oposição a uma “estrutura em árvore”. Como refere este autor o pensamento dominante de diferentes actores (intelectuais, burocratas, professores e investigadores) inscreve-se numa perspectiva de segmentação da realidade em que se classificam, planificam e programam as escolas e as instituições artísticas e culturais no sentido de atingir determinados objectivos mensuráveis e que, conceptualizar as artes e a cultura, assim como a formação artística, como “estruturas em árvore” quando elas são rizomáticas e anti-estruturais, caracterizam a uma visão redutora dos fenómenos complexos contribuindo para o desenvolvimento de políticas falhadas (p. 211).
Neste contexto, torna-se pertinente, por um lado, pensar e reolhar para a necessidade de encontrarem modalidades que procurem atenuar, senão mesmo neutralizar, a perca do sentido de unidade, ou pelo menos de convergência, das diversas formas de conhecimento e actividade humanas, contribuindo para alterar o empobrecimento cultural daí decorrente. Por outro, rearticular interactivamente o Ensino de Música requer não só transpor a inadequação entre os saberes fragmentados e compartimentados entre disciplinas e áreas como atender às realidades, mundos e problemas cada vez mais polidisciplinares, transversais, multidimensionais e transnacionais. Como refere Morin (2000), a hiperespecialização impede de ver o global (que ela fragmenta em parcelas), bem como o essencial (que ela dilui). Retalhando as disciplinas e saberes torna impossível apreender "o que e tecido junto", isto e, o complexo, segundo o sentido original do termo.
Assim importa avançar para um trabalho de construção de saberes e de conhecimento hesitante "não em linha recta mas numa espécie de linha exaltada, que entusiasma, que vai atrás de uma certa intensidade sentida; avanço que já não têm um trajecto definido mais um trajecto pressentido, trajecto que é constantemente posto em causa; quem avança hesita porque não quer saber o sítio para onde vai. Se soubesse já, para que caminharia ele? Que pode ainda descobrir quem conhece já o destino? Hesitar é um efeito da acção de descobrir; só não hesita quem já descobriu, quem já colocou um ponto final no seu percurso de investigação" (Tavares, 2013, pp. 26-27). Conhecimento hesitante de modo a multiplicar “as analogias, as explicações, as ligações; multiplicar as possibilidades de pensar’’ (Idem: 67)
 
2. Do trabalho artístico e da formação de músicos: das multiactividades e das múltiplas competências
O conceito de artista, sendo um conceito social e culturalmente construído, é caracterizado por uma ambiguidade com contornos diferenciados que decorrem das transformações sócio-históricas, políticas, sociais e culturais relacionadas com a criação artística (Le Coq, 2002, Nicolas-Le Strat, 1998;. Na definição social do ser-se artista, a “ideologia carismática” do artista não reconhece “outro tipo de tribunal que a sua consciência”, o que se acomoda mal tanto com “a racionalidade burocrática”. A identidade profissional do artista não se deixa enclausurar por “nenhuma definição jurídica dura”, existindo quatro grandes critérios que permitem a definição deste grupo social: independência financeira (viver da profissão); auto-definição (dizer-se artista); competência específica (ser diplomado por uma escola artística); reconhecimento pelos pares (Moulin, 1997:249).
Neste enquadramento, a conceptualização das profissões artísticas é também uma questão complexa (Menger, 2005) em virtude da coexistência de “múltiplos critérios, muitas vezes dificilmente compatíveis. “Os artistas conservam a sua identidade social específica à força de compromissos pessoais, reforçados pela aprovação e reconhecimento de outros artistas que povoam uma ou várias das múltiplas comunidades informais e vibrantes que abrangem a totalidade do mundo da arte. Ou seja, a arte não é nem trabalho, nem actividade lúdica. É um híbrido anormal dos dois” (Freidson, 1994:134).
Este carácter hibrido do trabalho artístico é feito de desafios e de invenções, mas também de apoios em soluções já experimentadas anteriormente num contexto de multiplicidade de estilos, numa oscilação permanente dos actores entre o princípio de rotinização e o princípio carismático. A alteração nos modelos de produção e de organização económica do trabalho no mundo artístico (Martinho, 2010) contribuíram para a criação de um contexto onde se cruzam diferentes modos de ser-se artista – modos de ser que se podem situar num eixo em que, num pólo, se encontra a segurança institucional e a continuidade, e, noutro pólo, um contexto de incertezas, em que os artistas procuram romper a compartimentação da vida cultural regida por instituições, estruturas financeiras, públicos ortodoxos e estilos convencionais (Coulangeon, 2000).
Este tipo de características – relações efémeras, a diversificação e a intermitência dos ambientes e dos projectos de trabalho – exigem ao artista uma “capacidade de adaptação elevada, superior à que requer normalmente o emprego numa organização permanente e estável, onde a definição das tarefas é melhor especificada” (Menger, 1994: 8). Cada experiência de trabalho é diferenciada, cada obra e/ou espectáculo é constituído por um conjunto de singularidades e as redes de colaboração são modificáveis, o que contribui para que a avaliação das competências dos artistas por si e pelos outros possa ser interminável, atendendo à variabilidade do trabalho, aos modos de produção e de realização artística, aos modos de recepção e de valoração social e cultural do trabalho.
Neste jogo de complexidades, a reputação desempenha um papel relevante, reputação essa que também se caracteriza por ser um fenómeno complexo que advém de um conjunto de factores que passam pela escola de formação, pelas diferentes redes de mediação e pelas características da obra e dos artistas, bem como pelos fenómenos relacionados com a massificação da cultura e do marketing correspondente, o que configura um conjunto de desafios e de riscos: risco de criatividade, intermitência da actividade, remunerada e flutuação dos rendimentos, importância da investigação e desenvolvimento não remunerado, produção prototípica, acaso do sucesso.
Perante este quadro importa interrogar e problematizar, ainda que de um modo sucinto, a formação de músicos no século XXI.
Bennett (2008) defende que os músicos do século XXI, no âmbito da designada música erudita ocidental, necessitam de uma base mais alargada de formação envolvendo competências e conhecimentos de modo a poderem desempenhar uma carreira como praticantes culturais, defendendo que o músico não pode definir-se simplesmente como performer, mas sim como um profissional multi-situado e com múltiplas competências que permitam o desenvolvimento do trabalho e de uma carreira em mais do que um campo especializado.
Existe uma necessidade urgente dos conservatórios mudarem o seu modo tradicional centrado na função exclusiva de formar intérpretes e desenvolverem um currículo mais realista e flexível de modo a possibilitar uma abrangência maior das carreiras dos músicos instrumentistas. Isto porque, como defende a autora, “para tornar as suas carreiras mais sustentáveis, os músicos têm de conhecer e enfrentar uma sociedade contemporânea com mudanças cada vez mais complexas e competitivas. Os músicos não são apenas intérpretes mas alguém que trabalha no interior da profissão de músico” e isto requer músicos que consigam quebrar barreiras a nível das hierarquias e das atitudes. O sucesso deve basear-se na satisfação com a carreira pessoal mais do que uma hierarquia pré-concebida de papéis” (Idem,p. xiii).
Neste contexto, os músicos intérpretes têm de reconciliar as diferenças entre as exigências da “perfeição” técnica e estilística na interpretação musical e a procura de uma voz, da sua voz, e da criatividade. Exigências que irão encontrar no âmbito do exercício profissional. Deste modo o pensar e o formar músicos instrumentistas para estes contextos societais paradoxais e ambíguas, para estes contextos societais, económicos e cultuais em mudança, significa pensar e construir um currículo e uma acção formativo-artística que promovam experiências de aprendizagem que contribuam para a “construção de multi-competências”, de abertura aos diferentes mundos. Como escreveu Madalena Perdigão (1979), “Exige-se ao artista de hoje, para além do domínio das técnicas do seu campo específico, uma compreensão profunda dos problemas inerentes à sua profissão e uma abertura de espírito relativamente aos outros campos de conhecimento e aos restantes campos de actividade”.
Particularidades que implicam (re)pensar politicamente a formação artístico-musical atendendo ao trabalho potencial a desenvolver (criação, interpretação, investigação, docência, produção, gestão das artes, agentes, tecnologias, desenvolvimento de projectos, por exemplo) e num quadro de multiactividade, de intermutabilidade bem como de renovação de espaços e de territórios de intervenção educativo-artística, entre diferentes processos através dos quais práticas diferentemente ignorantes se transformam em práticas diferentemente sábias (Santos, 2002).
3. Os desafios de viver em tempos de mudança: lidar com as incertezas
Tendo em consideração o exposto anteriormente, sintetizo os desafios que se colocam ao ensino especializado de música em torno de um conjunto de 4 cês: conhecimento, criatividade, cosmopolitismo, complementaridade.
Conhecimento: compreender, intervir e lidar com as complexidades
O conhecimento afigura-se como uma das dimensões centrais na vida das sociedades contemporâneas. Conhecimento que, como sabemos, difere de acumulação de informação, embora sem ela não o conhecimento não exista. Pode advir de múltiplos modos (mais formais e informais) e constituir-se em diferentes modalidades: do conhecimento científico ao conhecimento artístico, do conhecimento filosófico ao conhecimento experiencial.
Neste contexto, importa chamar a atenção para o papel da investigação e da pesquisa na compreensão das diferentes realidades, na produção artística e na produção do conhecimento. Hánnula et al. (2005) referem que "[A  investigação artística]  está relacionada com os processos e dimensões de auto-reflexão e autocrítica de um indivíduo envolvido na construção sentidos no âmbito da arte contemporânea, e de uma forma em que ele  comunica de onde vem, onde ele está nesse preciso momento, e para onde quer ir" (p.10). Isto pressupõe um estádio do "ainda não saber muito bem o que fazer'' e normalmente desordenado em que o artista-investigador "não têm uma direcção clara sobre o que faz, seja incapaz de articular o processo de um modo claro e quando o estágio inicial termina o pensamento e o processo pode ser recapitulado e comunicado.
Neste “estar preparado para perceber o inesperado” o “conhecimento em arte” é uma dimensão relevante. Como refere Efva Liljá (2012), “o conhecimento em arte ("knowledge in art'') está relacionado com o que eu preciso para criar alguma coisa, para expressar e comunicar as minhas ideias no mundo exterior. E através deste conhecimento que sou capaz de apreciar a arte, e melhorar as minhas competências para comunicar e olhar para o mundo de um outro modo, de uma outra perspectiva fora do que é o senso comum existente nos quotidianos […]. Uma reflexão consciente e uma visualização dos sentidos num trabalho artístico que é eminentemente subjectivo no plano da sua recepção e interpretação".
Criatividade: potenciar os imaginários
A criatividade pode-se caracterizar por ser um processo complexo envolvendo o processamento de informações e saberes diferenciados, ideias, acções, sentidos e estruturas e modos de fazer presentes num determinado momento e espaço conceptual, social e cultural de que podem resultar múltiplas possibilidades de articulações significativas (Odena, 2012; Thomas & Chan, 2013). As complexidades existentes neste processo, a mobilização e manipulação dos saberes, enquadram-se num contexto de um trabalho oficinal (mesmo utilizando aparatos tecnológicos também eles complexos).
O processo criativo começa, de um modo geral, com o objectivo da resolução de um determinado problema, exterior ou interior ao individuo ou sugerido pelo estado da arte do domínio em que se inscreve, numa dinâmica entre a criação de algo de novo e/ou reconfigurado, de descoberta e de bricolage (Csikszentmihalyi,1996). Contudo, “quando falamos de imaginação estamos também no campo da contestação […] das fixações de um aqui e de um ali, de um interior e de um exterior” numa geometria plural e “espantosa (que espanta, que surpreende)” (Tavares,2013:32-33) aberta ao acaso e ao desconhecido.
Neste processo importa estar-se atento e potenciar “um quadro alargado de traços de personalidade” que incluem “independência de julgamento, auto-confiança, atração pela complexidade, orientação estética, tolerância para lidar com a ambiguidade, abertura para a experimentação e para lidar com o risco” (Baer & Kaufman, 2006:18). Consequentemente o desenvolvimento de um trabalho formativo, passa por um conjunto alargado e interdependente de situações e de “encontros estratégicos” que “compreendem uma colisão criativa do individual, ideias e acções” (Burnard, 2012).
            Encontro estratégico e interactivo que implica atender à perspectiva poliédrica do processo, e que, sinteticamente, envolve: (a) “o potenciar o imaginário”, revestindo-se de múltiplas formas e modelagens musicais e extramusicais, significa “o motor do início de algo, o momento de aparente imobilidade onde, interiormente, […] se constroem ideias: umas combatendo outras” (Tavares, 2013:384); (b) a “exploração e experimentação” em que de modos diferenciados se vão procurando e adequando às ideias, processos, objectos, técnicas. (c) o “passar do imaginado ao fazer o imaginado”, criando “novas coisas”, novas ideias ou ideias reconfiguradas no mundo, multiplicando “as possibilidades de verdade, as analogias, as explicações, as ligações” (Idem:385).
Cosmopolitismo: convivialidade entre diferentes
Como tenho vindo a defender, a actividade artística “não é una; ela não é a actividade de um artista. Ela é sempre plural. E por detrás dessa pluralidade se descobre a diversidade, as disciplinas, as notoriedades, as sensibilidades, os estatutos […]”. Mesmo que “a actividade seja única – a unicidade de uma criação ou de um espectáculo – isso não a impede de existir como multiplicidade, de associar competências, de misturar os géneros, de desconstruir as suas próprias referências, de organizar os estilos, de transgredir o seu espaço. A sua multiplicidade […] informa-nos acerca do seu mundo de acção (o rizoma ou a rede), do seu desempenho e da sua produtividade (a desmultiplicação)” (Nicolas-Le Strat, 2002: 38-39).
Destas interdependências, singularidades e proliferação de sentidos e de mundos, muitas vezes distantes e conflituais, emerge a necessidade de encontrar formulações que permitam a convivialidade entre referências múltiplas, entre culturas que se interpenetram, o que tem subjacente uma perspectiva cosmopolita de olhar para o trabalho formativo e para as carreiras artísticas. A convivialidade entre diferentes “territórios de fronteira” e zonas de contacto, entre diferentes tipologias e géneros artísticos, diferentes saberes técnicos, estéticos e culturais, diferentes saberes experienciais e entre modalidades formais e informais (Green, 2002; 2008).
Esta convivialidade implica uma “imaginação dialógica”, de que fala Ulrich Beck (2002). Diz este autor que a “imaginação dialógica” corresponde “à coexistência de modos de vida rivais na experiência individual, o que torna inevitável a comparação, a reflexão, a crítica, a compreensão e a combinação de certezas contraditórias”. Enquanto “a perspectiva nacional é uma imaginação monológica, que exclui a alteridade e o outro”, a perspectiva cosmopolita é “uma imaginação alternativa, a imaginação de modos de vida e racionalidades alternativas que incluem a alteridade do ‘outro’ (p. 18).
Ora esta visão do cosmopolitismo é perspectivada, a partir do local, naquilo que designo por “localismo cosmopolita” que contrarie a desterritorialização do trabalho e contribua para a afirmação das singularidades. E nestes “localismos cosmopolitas” as comunidades apresentam-se como um elemento determinante no desenvolvimento dos projectos colectivos e individuais. Como salienta John Holden, os projectos de natureza mais comunitária estão também no fortalecimento da consciência de que se pertence à comunidade. Diz este autor que “o que cria um grupo é a cultura e as formas de expressão partilhadas, os lugares de encontro, os lugares onde estamos habituados a ir – tanto em teatros e concertos, como nas ruas e bares” (Público, 15 Fevereiro 2015, p. 33).
Neste contexto, ao invés de uma estrutura verticalizada de se pensar e organizar o ensino especializado, o trabalho artístico-pedagógico e a dinamização artística e cultural das intervenções, a perspectiva cosmopolita pensa-se numa organização e estrutura mais horizontal em que as particularidades de cada mundo em presença são tidas em consideração, em que a alteridade, ou seja, o tratamento do outro é feito não como um adversário mas como um parceiro de uma comunidade de interesses, de uma comunidade de aprendizagens. O que nos e estranho, o que é “estrangeiro” não é vivido como uma ameaça mas como um enriquecimento, ultrapassando as antigas dicotomias entre o local e o global, o nacional e o transnacional, os profissionais e os amadores, na mobilização de um conjunto de valores de assunção das diferenças como forma de construção de igualdades.
Complementaridade: entre as escolas, as formações, os artistas e as instituições culturais
Existe uma abundante expertise, competências e boas práticas musicais em diferentes tipos de contextos quer no que se refere aos artistas individualmente considerados (intérpretes, compositores, por exemplo) quer em diferentes tipos de organizações artísticas e em diferentes níveis de escolas, que nem sempre é potenciada e articulada.
Ora, uma das questões centrais para o desenvolvimento da educação artístico-musical é conceber contextos educativos e formativos, com as correspondentes metodologias e estratégias, que possibilitem a conexão entre a escola, a casa e a comunidade, de modo a desenvolver atitudes positivas para as aprendizagens e para fazer música em conjunto, bem como contribuir para a construção de pontes entre as actividades musicais, os recursos e os saberes as comunidades.
Uma das dimensões desta complementaridade está relacionada com os “artistas na escola”. Um dos argumentos principais que defendem o papel dos artistas nas escolas e na educação sugere que “os artistas são os principais defensores da autêntica experiência de criar, fazer e experimentar. O que é necessário é uma mudança fundamental na compreensão do que os artistas podem trazer para a educação – bem como dos benefícios que também eles retiram desse papel. […]. Ao convidarem-se artistas para desempenharem um papel num ambiente escolar, consegue-se realizar os objectivos das políticas, uma vez que as parcerias entre artistas e educadores trazem para a sala de aula especialidades diferentes mas complementares” (Bennington College, 2002, p. 8).
Contudo, o trabalho artístico-pedagógico que deverá a continuar a ser feito pelos professores não deverá ser confundido com o trabalho desenvolvido pelos artistas. Como refere Marland-Militello (2005) “convém distinguir o trabalho pedagógico do professor do trabalho realizado pelo artista ou interveniente exterior. A perpetuação, mas também o desenvolvimento das cooperações passam por um incremento da duração média das intervenções, pelo desenvolvimento da disponibilização de professores nas estruturas culturais, pelo reforço das estruturas educativas nas instituições culturais, por um maior esclarecimento dos objectivos atribuídos às instituições e pela sistematização do auxílio à realização de projectos por parte dos artistas” (p. 73).
Uma outra dimensão da complementaridade e dos processos colaborativos centra-se num trabalho de resistência a favor de modalidades que contrariem as tendências dominantes assentes em lógicas mercantilizadas de conceber e organizar a formação e as artes e que reforce as possibilidades de partilha em que se retome a ideia renascentista de trabalho em grupo. Como refere criticamente Maria João Pires ao jornal Vanguardia de 17 fevereiro de 2015 a propósito do seu Projecto Partitura: “É como uma pós-graduação para encarar a vida profissional. Pretendo que enfrentem os problemas do mundo de hoje de uma maneira correcta, porque temos muitos músicos talentosos por todo o mundo e se vêm obcecados a seguir os mesmos canais para conseguir trabalho: concursos para ser considerado “o melhor” e lutar pela fama de maneira muito solitária. Claro que é importante apresentar-se ante o público, mas o mais importante é partilhar algo entre gerações, e essa transmissão de conhecimentos há desaparecido, já não há professores com essa capacidade de ensinar como tocar. Já não partilham, só vendem um produto comercial. O modelo renascentista do trabalho em grupo é importante, uma experiência partilhada, orgânica. Não só estás a aproveitar-te do presente mas também projectando-te. Se não projectas nada sucede”
4. Considerações finais
Num tempo em que as trocas culturais se multiplicam em confronto e em convergência (Vasconcelos, 2004b), em que a criação artística quebra fronteiras estéticas e geográficas, onde as práticas individuais reinventam modos diferenciados de relacionamento com os objectos simbólicos e com os territórios do imaginário, a escola e os diferentes actores interrogam os deveres, responsabilidades e estratégias em matéria da educação artístico-musical. Estas reconfigurações reivindicam da acção pública um cruzamento de desafios nacionais, tradições, patrimónios, identidades, mas também problemáticas transversais decorrentes de um mundo globalizado e dos processos de globalização cultural.
Ora as “singularidades diferentemente articuladas”, que caracterizam o ensino especializado de música e jogo de complexidades inerentes, têm subjacente um pensar político e um conjunto de políticas também alicerçadas em redes de geometrias variáveis. Políticas com diferentes tipos de configurações de interdependências, entre (a) as escolas, o estado e a administração; (b) instituições formativas e formações; (c) formações e políticas culturais e musicais; (d) profissionalidades docentes diferenciadas; (e) o local e o transnacional; (f) o carácter compósito e intermitente do trabalho artístico (Vasconcelos, 2011).
Políticas que dêem corpo às práticas inovadores existentes no terreno e que contribuam para a construção de uma outra ideia de escola, de formação de vivências artísticas uma vez que “a escola que procura a homogeneidade, que se rege por metas iguais para todos os alunos, que ostraciza a diferença não é certamente o melhor começo de vida para pessoa que vão ter de participar em sociedades conflituais e que exigem negociação; não vai ser, de certo, a melhor escola para cultivar a criatividade e para abrir os caminhos da cooperação. […] Sermos singulares significa que temos representações muito diferentes do mundo, por isso nos enriquecemos com o pensamento dos outros” (Rodrigues, 2015, Público 10 de Abril 2015, p. 45).
Ora, o ensino artístico, as artes e as escolas artísticas começam a representar um bom sinal na construção destas singularidades. Daí a pertinência das escolas artísticas como centros e laboratórios de cultura e de cidadania, onde diferentes gerações aprendem a arte do encontro com os saberes, as técnicas, as estéticas e, principalmente, a arte do encontro com os outros na co-construção e reconfiguração dos mundos pessoais e colectivos. O trabalho constrói-se alicerçado na história, nas memórias e em determinadas visões do futuro mas, fundamentalmente, nas vivências do presente e, deste modo, está-se a contribuir para uma sociedade mais culta e, por essa via, mais democrática.
 
Referências bibliográficas
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[1] Texto resultante da conferência apresentada no II Encontro do Ensino Artístico Especializado da Música do Vale do Sousa, sob o tema: Olhares e Geografias Sobre o Ensino da Música, Lousada 15 de Abril de 2015.
 

quinta-feira, 21 de abril de 2016

Arts education a question of democracy between different worlds and imaginaries




Introduction[1]

When we analyzed the public policies related to Arts Education in Portugal we can identified three major modes of thought that have characterized the discourses and practices of arts education in schools: (a) utility spaces (the integral training of children, artists training,  public training); (b) sense of marginality in relation to other forms of education (there are no policies for arts education) and (c) too much past, translated in the sense of marginalization and criticism on the role of the state and over-expressed in the future importance of the arts in the education of future citizens. The excesses of the past and the future have not contributed, and do not contribute, to the development of new understandings in relation arts, education, society and culture.

In this context it’s important to look for arts education, look to school, with a certain attitude of resistance to the prevailing logic of conceptualizing education and public school promoting other frameworks for the development of educational and artistic work to contribute for the choice of paths, always contingent and unpredictable, which are adapted to different contexts, expectations and developments of children, young people and adults, schools and community settings.
So, my intervention on this conference, has as a starting point  the following question: “what kind of characteristics I identify in arts education that can contribute not only to build a more participatory, cultured and cosmopolitan citizenship but also, in this way, contribute to the reconfiguration and another thinking of school?”. I will try to answer this question through three sets of ideas, "arts education is an ambiguous and paradoxical territory which does not form artists"; "arts education lies at the confluence and conviviality between different worlds" and "the centrality of arts education is based on the creation of what is unknown, of what does not exist, yet".

Ideas that result, on the one hand, from the analysis of the most innovative experiences that exist in Portugal and, secondly, the need to look in another way for this training area in the context of both local and global contemporary society, characterized by the existence of multiple and contradictory worlds. These ideas are presented as poles in finding another way at these issues, not in defense of the importance of the arts in education, but arguing that the arts are forms of knowledge and interpretation of the real and imaginary worlds, are modalities which, in addition to entertainment, contribute to the challenged, to create problems and questions that are beyond the purely rational dimension. On other hand, these ideas are organized around the tension between Education and Art “equating, on the one hand, the importance of artistic expression for the development of the child [young people and adults], and, on the other hand, while areas of knowledge and autonomous culture, with its own specificity [...] This idea It leads us to defend the existence of an artistic culture which treatment should be object, in creative and dynamic ways, of study in our schools [...]. It is in this tension between education and art that we can find the ways to walk together in the coming years" (Nóvoa, 1987, p. 23).

 

Arts education is an ambiguous and paradoxical territory which does not form artists

The first idea is that “Arts education is an ambiguous and paradoxical territory”. Ambiguities related with the political level and the characteristics of this type of education and training.

In the first case, political level, "in a society that boasts the importance to the arts and culture, arts education occupies an ambiguous position. Politicians of all
quadrants display it as flag without ever agreeing on the means necessary to its development. The education system, including it always in the compulsory program, frequently reduces it to a subordinate position" (Beaulieu, 1993a: 16).

In the second case, characteristics of this type of education and training, the ambiguity results from the tension between the fields where it is located: education and the arts. This tension is one of the factors that contribute to the existence of a number of paradoxes that enhance these ambiguities.

The first paradox is manifested within the school system, where "school tends to translate the artistic experience in terms of content, knowledge and techniques geared to one purpose: the training."  However, if we can teach the techniques, history, or the analysis of the works, artistic education, in any plan that carries, form people do not form artists. And this, seeming a jargon, is structuring and questioning of what is still dominant in terms of training.

The second paradox, as in education in general, is that the "encounter with art" can not only be provided by teachers, by the schools since this “encounter” cannot take place without the mobilization and utilization resources outside the school, artists or cultural organizations.

The third paradox, is manifested in the confrontation between the "academic certification" and "artistic certification", both relevant, but not always matching with the requirements of the "art market".

The fourth paradox is based on the political dimension taking into account that arts education bases its legitimacy on a democratic conviction: "art is a good of all and therefore must be accessible to all." The State responsibilities under these policies as they are practiced in three distinct spheres, education, arts and culture, and they are "not based on the same modes of action or presuppose the same challenges" (Ibid: 17).

In these complex and ambiguous relationships between the demands "universal education” and the “unique experiences of art”, that "resists being caged in artistic disciplines, administrative barriers and territorial boundaries, making himself heard across cultures and societies" (Interarts, 1999), artistic education plays a role in what Bamford (2006) refers as "the wow factor". That is, "the enthusiasm and the unexpected results, hardly definitive, but which have a huge impact on teachers and even in communities where it happens (p. 18). Thus, "to qualify the artistic experience is so powerful that it cannot always be planned in terms of prescriptive learning outcomes, nor measured in tests, as so often expect in more formal educational settings. That is the nature of the creative act - the divergence, the 'inexplicable unreal" (Durrant, 2003: 82).

 

Arts education is situated at the confluence and conviviality between different worlds, real and imaginary

The second idea is that “Arts education is situated at the confluence and conviviality between different worlds real and imaginary”, and this confluence and conviviality between different worlds featuring arts education emerges from three
essential aspects.

The first is that this kind of education and schools are among the art world, culture and the world of education.

The art worlds are, in the words of Howard Becker (1984) intersections networks, dependencies and interdependencies, in which individual and collective activities involving a wide range of subjects, actions and meanings, expectations, needs and constraints, the views of artist, the role of art in society, the role of art in society in education, public consumption and the different reference contexts, both nationally and internationally. It is this network that enables the creation, appropriation and dissemination of the artwork.

On the other hand, within the performing arts, for example (cf. Vessilier-Ressi, 1995), teaching and learning, only makes sense in triangulation between training, creativity, enjoyment and production in the context of realization and practice presentation of different artistic achievements that have different modes of underlying communicability and various public since these differ in terms of interest and binding to a particular shape and artistic genre in a "eclectic mixture of aesthetic codes"(Pais 1995: 133).

The second observation relates to the formative work situated between artistic and educational subjectivities. Indeed, art education, any artistic school is by its nature rich in contradictions and paradoxical situations (Duve, 1992 Michaud, 1992 Vasconcelos, 1999). On the one hand, it is based on the principles of art and education that are build a set of rules, rules that are in constant disequilibrium through the use of the imagination, the emotions and feelings that artistic practices mobilize. On the other, arts education requires from students opposite qualities. Alongside the technical field, the use of rules, conventions and standard procedures, the student should be able to build its difference and originality (Menger, 1996). Should be able to integrate the society of their time, develop certain skills, with differentiated and often contradictory features.

The third observation is related with the fact that the training role is situated between the conventions and individuals. In fact, the arts, as social and human construction, as culture and form of knowledge (Martí, 2000), are shaped by different socializing contexts. The "building artistic senses" depend on the ownership of certain procedures, techniques and aesthetics according to the universes of reference. Changing these sociocultural universes the meanings and artistic cultures change too.

Indeed, the different forms of expression, creation and artistic achievement they have underlying a set of conventions, with multiple character, a dynamic between permanence and change, between tradition and innovation, a dialectic between the "territory of training" and "territory of the individual" (with their talent, their vocation, their strategies and singularities - Duve, 1992; Menger, 1996; Moulin, 1997). The way the bridges are established either by an uncritical assimilation, partnership or confrontation, is another of the key aspects of how the individual projects himself in the present and in the future.

For example, to learn to play an instrument, composing or playing in public, beyond the purely technical aspect and an artistic rationality, what is at stake is that the Beethoven's universe is different from Chopin's universe, Bach's universe is different from Haendel, the universe of Kwella culture is different from the universe of Suffi music and so on, and that the public move, also, in different worlds. In this plurality of differences (with their own codes and conventions) school and education play an important role in ways that contribute to the settlement of differences and the construction of singularities detecting and elucidating the points of divergence and, at same time, the points of convergence (Kartomi and Blum, 1994), as demonstrating, for example, the cellist Yo-Yo Ma among the universe of Bach's suites and the work of Piranezi from XVIII sec.
And in this "being between" the metaphor of the border helps us to create intelligibility between the subjectivities involved, areas of convergence and divergence, the conquest of new boundaries. Three aspects characterize this border territory: the inquietude and risk, tradition and originality, limits and transgressions.

Inquietude and risk

Living in a border territory means the necessity to reinvent almost everything. The memories and the experiential knowledge of individuals, and/or of the collective, are modified when applied in different contexts "(...) an availability to wait for anyone. It means the necessity to pay attention to all who come with their different habits and recognize the differences as opportunities for mutual enrichment "(Santos, 2000: 324).

Living in a border territory is also living in uncertainty and unease. The city to build (Boltansky & Thevenot, 1991) is part of a projection of desire in relation to the future, by providing frameworks close to the persons, close to the geographies and times, based on "dialogue and in a culture of closeness and inclusive basis."

Tradition and originality

The experience of living in a border territory means to live in a suspension space "in time between times" as stated Santos (2000). Unpredictable situations subvert the plans and pre-existing forecasts. The memories and traditions are reconfigured by the need to overcome the dilemmas between the known and the unknown, between playing old models or replace them. The assumption of tradition is reconfigured in order to find aspects of memories and traditions that are significant to the individual, to the collective and to perform certain artistic work, according to the communicational situations and contexts, in an interrelationship between heritage, originality and change.

Limits and transgressions

The border territory, while social and cultural spaces, is based on the limits and in the transgression of these limits. Stability-innovation-instability-stability are some of the stages that characterize the complexity and precariousness of the "border sociability" (Santos, 2000). As stated Becker (1984) "in general, breaking the existing conventions and its manifestations in the social structure (...) increase the problems to the artists and disbelieve the circulation of their work, but at the same time, increases their freedom choice of unconventional alternatives (...) "(p. 34).

 

Centrality of arts education in the creation of what is not yet known, what does not exist, yet

If we think education as transformation, "this means that there is a dynamic relationship that carries a fundamental tension situated between what is already known and the way to something that we don’t know very well, what will be, which is not yet fully appropriate by the individual. And if this can cause some initial discomfort, and causes, the arts and arts education, in particular the performing arts, can be an important tool in developing this creative tension between what is and what is not, particularly, in the development of new individual and collective imaginaries (Vasconcelos, 2013).

In fact, in my opinion, one of the main functions of arts education is to activate the resources of the imaginary and creativity and, in particular, encourage modes of resistance from the closing and uncritical reproduction of models in terms of organizational and educational-artistic modes, in order to develop the desire and pleasure for challenge, for the risk of the unknown.

Antonio Pinho Vargas, 2001, portuguese composer, refers to the act of composing as "a complex process, one being launched in which arise things, to the forces which responds in some way. This being-open to the becoming inherent in the creative process (...) does not exclude the historical consciousness of so-called material (each composer will have in a very different way). From this conception  emerges keywords like: process; complexity; be-open for the future; historical consciousness; materials; differentiation; individuality; unpredictability; restlessness; challenge; risk; discipline; order; disorder, that featuring the creative act.

The "creation of what is not known, what is new," also involves emotional intelligence in each one needs to feel the challenge, the desire to (re) reconcile the unknown with the system of codes and existing conventions within their reference frameworks. However, "when we speak about imagination we are in the field of contestation [...] in the anchorages of one here and one there, an inner and an outer" in a plural geometry and "astonishing (which amazes, that surprises)" (Tavares , 2013: 32-33) open to the random and to the unknown through "extended rationality" (Jiménez, 2005: 162) based on multiple options.

Thus, art education and education for creativity unfolds in a complex framework, goes through a comprehensive and interdependent set of situations and "strategic encounters" that "comprise a creative collision of individual, ideas and actions" (Burnard, 2012a ).

This strategic and interactive encounter has three types of implications. The first involves thinking student, child, youth and adult, as a individual who builds his own speech and his authorial condition facing different kinds of conflictualities enabling the development of personal and artistic thinking in convergence and / or divergence with pre-existents aesthetic and technical models.

The second implication, is necessary to attempt that community art practices are plural, diversified, open fields of possibilities in creation of bridges between different worlds, encouraging the "trial of the ideas through improvisation, the collaborative work and discussion" opening to the territories of "collaborative approaches that connect people, disciplines and genres" projecting ways to enable "new points of comparison and starting", learning environments "that connect tradition and innovation" (Gregory, 2005: 20-21).

The third implies the necessity to recognize the multifaceted perspective of the creative process, often with advances and setbacks, changes of direction witch synthetically involves: (a) “promoting the imagination", means" the initial combustion engine of something, the moment of apparent immobility when, inside […] ideas are formed: some fighting the others” (Tavares, 2013: 384); (b) "exploration and experimentation" in which different ways are sought and adapting to the ideas, processes, objects, techniques are pursued and accommodated; (c) ‘moving from that which is imagined to making what is imagined’ creating "new things", new ideas or reconfigured ideas in the world, multiplying the "real possibilities of analogies, explanations, links" (Ibid: 385); (d) ‘moving from that which is imagined to making what is imagined’ that confronts others in a complex relationship between different modes and conditions of perception.

Conclusions

All the considerations presented, they have underlying a concept of artistic education and schools simultaneously existing and imagined. Thought schools as spaces that allow the construction freedom and familiarity not hegemonic between different worlds, skills, knowledges and practices. Freedom and familiarity not free from conflict but also from convergences.

The references that we have today in relation to this kind of education and teaching are historically and culturally constructed, based on a particular representation of what is art, the artists, teaching and learning, confronted between the romantic-classical tradition paradigms, functionalist paradigms and pressure of globalization and cultural industries in particular related with the standardization of taste and the media visibility of the great achievements. Neoliberal policies and the traditional canons do not value the schools as "symbolic and ambiguous territories", as "useless space" as "laboratories of knowledge and culture" that enhance the imagination and encounters with others, with knowledge in a "dialogic" confrontation in which exist the valorization of the policy of artistic education as "symbolic and ambiguous territories", in "the experiencing of new journeys and itineraries, living across borders and contact zones" (Novoa, 2002), in an interpersonal networks and collaborative creativities  mobilizing concepts of different geographies, living together with multiple voices and senses, reflecting the different artistic personal universes, that contribute to a new discourse and democratic artistic and educational action, not hegemonic and emancipatory. That contributes to a citizenship and a school more participatory and cosmopolitan.

And in this citizenship and school more participatory and cosmopolitan, work the imagination presents itself as one of the relevant dimensions. As the Gonçalo Tavares, portuguese writer states, and I will end in a provocative way, "The imagination, the ability to produce mental images of things that are not immediately in front of the eyes, is an unusual human capacity unfortunately, it is often undervalued, and almost attacked in the educational process. In fact, the phrases: - pay attention!, you have your head in the moon !, etc. are repressive expressions that show how the school is constantly saying: do not imagine, see!. As if what is shown is always more important and relevant than what is imagined. A parallel school, almost utopian, too, would be one in which teachers sometimes say, today you're not enough on the moon! Or: do not be so attentive, dressed, what I'm showing to you! Or, to put another way, not so extreme, more realistic: the school should give to see, get to know, only what enhances the imagination. I'll show you something that will allow you later the possibility to imagine many other things. Images that feed the imagination and that don’t decrease. Replace definitions by imaginings- this could be a motto; contestable, of course, but that could allow, perhaps, a discussion and a shift of mental educational space" (Gonçalo M. Tavares, Público 8 de janeiro de 2016, p. 5).







[1] Working paper presented at  2016 European Teacher Educational Network Conference, Setúbal, 15 April.