A primeira ideia é
a de que “A educação artística é um território ambíguo e paradoxal que não
forma artistas”
Ambiguidades dizem respeito ao plano
político e ao âmbito das próprias características deste tipo de educação e
formação. No primeiro caso, “numa sociedade que se vangloria da importância que
dá às artes e à cultura, a educação artística ocupa uma posição ambígua. Os
políticos de todos os quadrantes exibem-na como bandeira sem nunca acordarem os
meios necessários ao seu desenvolvimento. O sistema educativo, incluindo-a
sempre no programa obrigatório, redu-la com frequência a uma posição de
subalternidade” (Beaulieu, 1993a: 16).
No segundo caso, a ambiguidade resulta
da tensão entre os campos em que se situa: a educação e as artes. Esta tensão é
um dos factores que contribuem para a existência de uma série de paradoxos que
potenciam estas ambiguidades. O primeiro paradoxo, manifesta-se no seio do
sistema escolar, em que “a escola tende a traduzir a experiência artística em
termos de conteúdos, de saberes e técnicas orientados para uma finalidade: a
formação”. No entanto, se se pode ensinar as técnicas, a história, ou a análise
das obras, a educação artística, em qualquer plano em que se exerça forma
pessoas não forma artistas. E isto parecendo um jargão é estruturante e
questionador do que ainda é dominante em termos formativos
O segundo paradoxo, e tal como a
educação em geral, reside no facto do “encontro com a arte” não poder ser
apenas assegurado pelos professores, uma vez que este “não pode ter lugar sem
que a escola recorra a recursos exteriores, intervenientes artísticos, ou
estabelecimentos culturais”.
O terceiro paradoxo manifesta-se no
confronto entre a “certificação académica” e a “certificação artística”, ambas
pertinentes, mas nem sempre coincidentes com as exigências dos “mercados
artísticos”.
O quarto paradoxo releva do político
tendo em consideração que a educação artística baseia a sua legitimidade sobre
uma convicção democrática: “a arte é um bem de todos e, por consequência, deve
ser acessível a todos”. As responsabilidades do Estado no âmbito destas
políticas, dado que se exercem em duas esferas distintas, a educação e a
cultura, “não assentam sobre os mesmos modos de acção nem sobre os mesmos
desafios” (Idem: 17).
Ora, nestas relações complexas e ambíguas
entre as exigências “universais” da educação e as experiências singulares da
arte que “resiste a ser enjaulada em disciplinas artísticas, barreiras
administrativas e fronteiras territoriais, fazendo-se ouvir através de culturas
e sociedades” (Interarts, 1999), joga-se o que Bamford (2006) refere como o “the
wow factor” na educação artística. Isto é, “o entusiasmo e os resultados
inesperados, dificilmente definitivos, mas que exercem um impacto enorme nos
professores e até mesmo nas comunidades onde acontece (p. 18). Assim,
“qualificar a experiência artística é algo tão poderoso que nem sempre pode ser
planeado em termos de resultados prescritivos de aprendizagem, nem medido em
testes, como tantas vezes esperamos em contextos educacionais mais formais. É essa
a natureza do acto criativo – a divergência, o ‘maravilhamento inexplicável”
(Durrant, 2003: 82).
A segunda ideia é
que a educação artística se situa na confluência e na convivialidade entre
diferentes mundos
Esta confluência e convivialidade entre diferentes mundos que
caracteriza a educação artística parte de três constatações.
A
primeira constatação é a de que este tipo de educação e de escolas se encontram
entre o mundo das artes, da cultura e o mundo da educação.
Os
mundos da arte são, no dizer de Howard Becker (1984) redes de intersecções, de
dependências e interdependências, em que as actividades individuais e
colectivas envolvem um conjunto alargado de sujeitos, acções e sentidos,
expectativas, necessidades e constrangimentos, as concepções de artista, o
papel da arte na sociedade e na educação, os públicos e os consumos e os
diferentes contextos de referência, quer no plano nacional quer internacional.
É esta rede que permite a criação, apropriação e a disseminação o trabalho
artístico.
Por
outro lado, no âmbito das artes performativas, por exemplo, (cf.
Vessilier-Ressi,1995), a aprendizagem, só adquire sentido na triangulação entre
a formação, a fruição e a produção no contexto de uma realização e apresentação
prática, de diferentes tipos de realizações artísticas, que têm subjacente
modos diferenciados de comunicabilidade e públicos diversos uma vez que estes
diferem em termos do interesse e da ligação a uma forma e género artístico
particular, numa "ecléctica mistura de códigos de esteticidade"
(Pais, 1995:133).
A segunda constatação relaciona-se com
o trabalho formativo situado entre subjectividades artísticas e educativas.
Com efeito, a educação artística, qualquer escola artística é pela sua natureza
rica em contradições e situações paradoxais (Duve, 1992, Michaud, 1992,
Vasconcelos, 1999). Por um lado, é a partir dos princípios da arte e da
educação que se constroem um conjunto de regras que estão em constante
desequilibro através da utilização que as práticas artísticas fazem do
imaginário, das emoções e dos sentimentos. Por outro, a educação artística
exige dos estudantes qualidades opostas. A par do domínio técnico, da
utilização das regras, das convenções e dos procedimentos estandardizados, o
estudante deve ser capaz de construir a sua diferença e a sua originalidade
(Menger, 1996). Deve ser capaz de se integrar na sociedade do seu tempo,
desenvolver determinadas competências, também elas de características
diferenciadas e muitas vezes opostas.
A
terceira constatação relaciona-se com o facto do papel formativo se situar entre
as convenções e os indivíduos. De facto, as artes, como construção social e
humana, como cultura e forma de conhecimento (Martí,2000), são enformadas por
diferentes contextos socializadores. A “construção de sentidos artísticos”
dependem da apropriação de determinados procedimentos, técnicas e estéticas de
acordo com os universos de referência. Mudando esses universos socioculturais,
alteram-se as significações e culturas artísticas.
Com
efeito, as formas diferenciadas de expressão, criação e realização artística
têm subjacente um conjunto de convenções de carácter múltiplo, numa dinâmica
entre permanência e mudança, entre tradição e inovação, numa dialéctica entre o
“território da formação” e o “território do indivíduo” (com o seu talento, a
sua vocação, as suas estratégias e singularidades - Duve,1992; Menger,1996;
Moulin,1997). O modo como estas pontes se estabelecem, seja por uma assimilação
acrítica, por parceria ou por confronto, é outro dos aspectos determinantes de
como o indivíduo se projecta no futuro.
Por exemplo, ao aprender-se a tocar um instrumento, a
compor ou a tocar em público, para além do aspecto meramente técnico e de uma
racionalidade artística, o que está em causa é que o universo de Beethoven é
diferente do universo de Chopin, o universo de Bach é diferente de Haendel, o
universo da cultura Kwella é diferente do universo da música Suffi e assim
sucessivamente, e que os públicos também se movimentam em diferentes universos.
Nesta pluralidade de diferenças (com os seus códigos e convenções) a escola e o
ensino desempenham um papel relevante nos modos como contribuem para a
apropriação das diferenças e a construção das singularidades detectando e
elucidando os pontos de divergência e os pontos de convergência (Kartomi e
Blum, 1994), como tem demostrando, por exemplo, o violoncelista Yo Yo Ma entre
o universo das suites de Bach e a obra do italiano Piranezi do sec XVIII.
E neste “ estar entre”, a metáfora da fronteira ajuda
a criar uma maior inteligibilidade entre o caracteriza as subjectividades em
presença, as zonas de convergência e de divergência, a conquista de novos
limites. Três aspectos caracterizam este estar entre, este espaço de fronteira: a
inquietação e o risco, a tradição e originalidade, os limites e a transgressão.
A inquietação e o risco
Viver
num território de fronteira significa ter reinventar quase tudo. As memórias e
os saberes experienciais de que os indivíduos, e/ou o colectivo, são
portadores, modificam-se quando aplicados em diferentes contextos “(...) numa
disponibilidade para esperar por quem quer que seja. Significa prestar atenção
a todos os que chegam a aos seus hábitos diferentes e reconhecer na diferença
as oportunidades para enriquecimento mútuo” (Santos,2000:324).
Viver num território de fronteira é
também viver na incerteza e na inquietação. A cidade a construir (Boltansky
& Thévenot, 1991) enquadra-se numa projecção do desejo em relação aos
futuros, através de enquadramentos próximos dos sujeitos, das geografias e dos
tempos, assente numa “base dialógica e numa cultura de proximidade e inclusiva”.
A tradição e a originalidade
A
vivência num território de fronteira significa viver num espaço em suspensão
“num tempo entre tempos” como refere Santos (2000). As situações imprevisíveis subvertem
os planos e as previsões pré-existentes. As memórias e as tradições são
reconfiguradas pela necessidade de superar os dilemas entre o conhecido e o
desconhecido, entre reproduzir velhos modelos ou a sua substituição. A assunção
da tradição é reconfigurada no sentido de encontrar os aspectos das memórias e
das tradições que são significantes para o indivíduo, para o colectivo e para a
realização de determinado trabalho artístico, de acordo com as situações e
contextos, numa interrelação entre herança, originalidade e mudança.
Os limites e a transgressão
O
território de fronteira, enquanto espaço de sociabilidade assenta nos limites e
na transgressão desses limites. Estabilidade-inovação-instabilidade-estabilidade
são algumas das faces que caracterizam as complexidades e as precariedades da
“sociabilidade de fronteira”
(Santos,2000). Como refere Becker (1984) “em geral, quebrando as convenções
existentes e as suas manifestações na estrutura social (...) aumentam os
problemas dos artistas e descresse a circulação do seu trabalho, mas, ao mesmo
tempo, incrementa a sua liberdade na escolha de alternativas não convencionais
(...)” (p. 34).
A terceira ideia
expresso-a na afirmação da centralidade da educação artística na criação do que
não se conhece, do que não existe
Se se pensar que educar é transformar,
“isto significa a existência de uma relação dinâmica que é portadora de uma
tensão fundamental situada entre aquilo que já se conhece e o caminho para algo
que ainda se sabe muito bem o que será. Que ainda não está devidamente
apropriado. E se isto pode criar algum desconforto inicial, e provoca, as artes
e a educação artística, e em particular as artes performativas, podem ser um
instrumento importante no desenvolvimento desta tensão criativa, entre o que é
e o que ainda não. Particularmente na criação de novos imaginários individuais
e coletivos (Vasconcelos, 2013).
Ora do meu ponto de vista uma das principais funções da educação artística
é o de ativar os recursos do imaginário e da criatividade e em particular
estimular modos de resistência em relação ao fechamento e à reprodução acrítica
de modelos e de modos organizacionais e pedagógico-artísticos, de forma a
desenvolver a apetência pelo desafio, pelo risco do desconhecido.
António Pinho Vargas, 2001 refere-se ao
acto de compor como “um processo complexo, um estar-lançado no qual surgem
coisas, forças às quais se responde de alguma maneira. Este estar-aberto para o
devir, inerente ao processo criativo (…), não exclui a consciência histórica
dos chamados materiais (que cada compositor terá de maneira muito diversa) mas
antes se desloca para fora do processo criativo” (António Pinho Vargas, 2001). Desta
concepção emergem palavras-chave como processo; complexidade; estar-aberto para
o futuro; consciência histórica; materiais; diferenciação; individualidade;
imprevisibilidade; inquietação; desafio; risco; disciplina; ordem; desordem que
caracterizam ao ato criativo
A “criação do que não se conhece, do que ainda não existe,”
envolve também a inteligência emocional e em que cada um tem necessidade de
sentir o desafio, o desejo de (re)conciliar o desconhecido com o sistema de
códigos e convenções existentes no âmbito dos seus quadros referenciais. Contudo,
“quando falamos de imaginação estamos também no campo da contestação […] das
fixações de um aqui e de um ali, de um interior e de um exterior” numa
geometria plural e “espantosa (que espanta, que surpreende)”
(Tavares,2013:32-33) aberta ao acaso e ao desconhecido através de
“racionalidade distendida” (Jiménez,2005:162) assente em múltiplas opções.
Deste modo, a educação artística como educação para a criatividade
desenrola-se num quadro complexo, passa por um conjunto alargado e
interdependente de situações e de “encontros estratégicos” que “compreendem uma
colisão criativa do individual, ideias e ações” (Burnard, 2012a).
Encontro estratégico e interativo que apresenta três tipos de
implicações. A primeira pressupõe pensar o estudante, a criança, o jovem e o
adulto, como um sujeito que constrói o seu próprio discurso e a sua condição
autoral enfrentando diferentes tipos de conflitualidades que possibilite o
desenvolvimento do pensamento pessoal e artístico em convergência e/ou em
divergência como modelos estéticos e técnicos existentes.
A segunda implicação, atender a que comunidade de práticas
artísticas se apresentam plurais e diversificadas, campos abertos de
possibilidades na criação de pontes entre diferentes mundos, encorajando-se a
“experimentação das ideias através da improvisação, da trabalho colaborativo e
discussão” abrindo-se a territórios de “abordagens colaborativas que conectam
pessoas, disciplinas e géneros” projectando-se caminhos que possibilitem “novos
pontos de comparação e de partida” em ambientes de aprendizagem “que conectam
tradição e inovação” (Gregory,2005:20-21).
A terceira, implica atender à perspectiva poliédrica do processo
criativo, muitas vezes com avanções e recuos e mudanças de direcção, e que,
sinteticamente, envolve: (a) “o potenciar o imaginário”, revestindo-se de
múltiplas formas e modelagens artísticas e extraartísticas, significa “o motor
do início de algo, o momento de aparente imobilidade onde, interiormente, […]
se constroem ideias: umas combatendo outras” (Tavares,2013:384); (b) a
“exploração e experimentação” em que de modos diferenciados se vão procurando e
adequando às ideias, processos, objectos, técnicas. (c) o “passar do imaginado
ao fazer o imaginado”, criando “novas coisas”, novas ideias ou ideias
reconfiguradas no mundo, multiplicando “as possibilidades de verdade, as
analogias, as explicações, as ligações” (Idem:385); (d) o “passar do imaginado
ao fazer o imaginado” que se confronta com os outros numa relação complexa
entre diferentes modos e condições de percepção.
Considerações
finais
Para terminar todas as considerações
que apresentei, têm por trás um conceito de educação artística, e de escolas
simultaneamente existente e imaginado. Escolas enquanto espaços de construção
de liberdade e de convivencialidade não hegemónica entre diferentes mundos,
saberes, conhecimentos, práticas. Liberdade e convivencialidade não isenta de
conflitos mas também de convergências.
Os referentes que hoje temos em relação
a este tipo de educação e de ensino são histórica e culturalmente construídas,
assentes numa determinada representação do que é a arte, os artistas, a
formação confrontada entre os paradigmas de tradição-clássico romântica,
paradigmas funcionalistas e a pressão da globalização e das industrias
culturais em particular no que se refere à uniformização do gosto e à
visibilidade mediática das grandes realizações. As políticas neoliberais e os
cânones tradicionais não valorizam as escolas como “territórios simbólicos” e
ambíguos, como “espaços de inutilidade”, como “laboratórios de saber e de
cultura” que potenciam a imaginação e os encontros com os outros, com o
conhecimento num confronto “dialógico” em que se valorize a política da educação
artístico como “territórios simbólicos e ambíguos”, “na experienciação de novas
jornadas e itinerários, vivendo através de fronteiras e zonas de contacto”
(Nóvoa, 2002), em redes interpessoais e inter-autorais que mobilizam conceitos
de diferentes geografias, onde a convivencialidade das múltiplas vozes e
sentidos, reflectindo os universos pessoais artísticos diferenciados, contribuam
para um novo discurso e acção educativo-artística democrática, não hegemónica e
emancipatória. Contribuam para uma cidadania e para uma escola mais culta
participativa e cosmopolita.
E
nesta cidadania e escola mais culta, participativa e cosmopolita o trabalhar a imaginação
apresenta-se como uma das dimensões relevantes. Como refere o Gonçalo Tavares,
num texto publicado ontem no público, e com isto termino de um modo algo
provocatório, “A imaginação, a capacidade
de produzir imagens mentais de coisas que não estão imediatamente à frente dos olhos, é uma
capacidade humana invulgar que, infelizmente, muitas vezes é desvalorizada, e
quase atacada, no processo educativo. Aliás, as frases: - está atento!, tens a
cabeça na lua!, etc. são expressões repressivas que mostram como a escola está
constantemente a dizer: não imagines,
vê! Como se aquilo que é mostrado fosse sempre mais importante e relevante do
que aquilo que é imaginado. Uma escola paralela, quase utópica também, seria
aquela em que os professores por vezes diriam: hoje não estás suficientemente
na lua! Ou: não estejas tão atento, colado, ao que te estou a mostrar! Ou,
dizendo de um outra forma não tão extrema, mais realista: a escola deveria dar
a «ver, dar a conhecer, apenas aquilo que potencie a imaginação. Vou mostra-te
algo que te permitirá mais tarde imaginares muitas outras coisas. Imagens que
alimentem a imaginação e que não a diminuam. Substituir definições por
imaginações – este poderia ser um lema; contestável, claro, mas que permitiria,
talvez, uma discussão e uma deslocação do espaço mental do ensino” (Gonçalo M.
Tavares, Público 8 de janeiro de 2016, p. 5).